Brincar e Ser Criança

Sempre que inicio uma psicoterapia infantil, peço aos pais que reservem um tempo na agenda para brincarem com seus filhos. Por incrível que pareça - e independente da problemática da criança, a mudança comportamental é bastante positiva quando o compromisso é levado a sério. Infelizmente, grande parte dos responsáveis não conseguem reservar sequer uma hora diária ou em dias alternados para se entregarem a esse mundo tão particular e cheio de descobertas das crianças. 

Para explicitar ainda mais a importância deste momento tão especial na vida dos nossos pequenos, quero compartilhar este texto simples e absolutamente realista que enfatiza o quanto a brincadeira tem papel essencial no desenvolvimento, ainda mais quando pautada nessa relação significativa entre pais e filhos. Apesar da rotina corriqueira (trabalho, estudos, atividade física, descanso, lazer...) tenho notado que o problema não é o tempo, o que falta é disposição. Há pais um tanto perdidos e desinteressados no oficio de ser cuidador - e não estou aqui julgando-os, aliás, considero que eles têm razões muito particulares para explicarem suas condutas, razões que os impedem de dar-se a suas próprias crianças. O que compartilho é a ideia de que não é preciso renúncias enormes para que a presença autêntica aconteça, basta a abertura e a ressignificação de algumas escolhas e prioridades. 

A Criança e o Brincar 
Por Anna Paula Rodrigues Mariano 
(Psicoterapeuta Existencial) 

Brincar é uma das atividades mais prazerosas na relação pais e filhos. É o momento em que a fantasia e a criatividade tomam conta da situação e as ações estão a serviço de um encontro mais autêntico. Para que isso aconteça não é preciso muito esforço, basta deixar a criança conduzir, ser o personagem que ela quer que você seja e embarcar nessa viagem de sonhos e aventuras. Não requer brinquedos sofisticados, apenas disponibilidade para estar ali, junto a ela, naquilo que é mais próprio de seu mundo – a brincadeira. 

É através do brincar que a criança entra no universo simbólico e assim estabelece sua própria maneira de relacionar-se com o mundo. Daí o cuidado que os pais precisam ter para não podarem esse processo. Oferecer brinquedos muito “prontos”, que não deixam espaço para a imaginação, pois praticamente eles – os brinquedos – brincam sozinhos, é quase um crime à infância! Bom mesmo é que a criança encontre os seus brinquedos no espaço que ocupa, com aquilo que tem à mão – e nesse contexto, uma colher pode se transformar em um avião, a tampa da panela é um excelente tambor, e assim ela vai criando seus próprios brinquedos, suas histórias, divertindo-se e enriquecendo o seu mundo. E se nesse trajeto ela tiver a presença afetiva dos pais ou responsáveis, suas descobertas e conquistas serão muito mais emocionantes!

De acordo com esse raciocínio, percebemos que brincar não é apenas um momento divertido. Essa atividade está relacionada de forma indiscutível com o desenvolvimento, diria até que é vital para que haja uma vida saudável em todos os sentidos. E não é só o brincar com o videogame, computador ou assistir programas de televisão – atividades tão rotineiras hoje em dia, infelizmente - é o brincar com a imaginação, deixar que os objetos se transformem em fadas, monstros, espadas, castelos encantados, enfim, essa fantasia atuada permitirá que os pequenos representem a realidade e aprendam a lidar com ela. Misturando a imaginação a coisas concretas do dia-a-dia, a criança constrói a sua capacidade de simbolização. Juntando objetos, símbolos, pessoas, situações, fantasias e sentimentos ela compõe uma imagem de si própria e de seu lugar no mundo.

É importante que os pais participem desses momentos, mas que isso não seja um peso, uma obrigação. É claro que a criança percebe quando o adulto está ali “sem querer estar”. E isso não promove todos os benefícios que o brincar proporciona. Estar com a criança é estar aberto ao que acontece naturalmente quando se cria um ambiente favorável, acolhedor e criativo. Quando se quer estar! É se jogar no chão, andar descalço, sujar a mão, fazer bagunça, fazer coisas estranhas, dançar, dar risada, cantar... Casa arrumadinha e brincadeira de criança definitivamente são coisas que não combinam.

Alguns pais podem indagar nesse momento sobre os limites. Pois bem, eles são fundamentais para o crescimento saudável da criança, mas precisam ser apresentados no momento certo e de forma coerente. Hora da brincadeira é a hora de explorar, de experimentar, de tirar as coisas do lugar e espalhar brinquedos pelo chão. É lógico que o limite nesse momento terá que ser colocado para que se preserve a integridade da criança, dos pais e da casa em si – por exemplo: ela não poderá brincar com as facas que estão na gaveta da cozinha, nem sair colocando fogo nas coisas. Também faz parte limitar o espaço da brincadeira, e nesse espaço destinado ao brincar, a criança poderá exercer seu direito de ser criança. O negócio é fazer o seguinte: combinar com a criança, independente da sua idade, que ela vai brincar e fazer bagunça, mas depois de acabar a brincadeira ela vai guardar as coisas em seus lugares. Isso, avisado antecipadamente, costuma funcionar muito bem.

É importante lembrar que a convivência com outras crianças também é fundamental. A troca e o contato com seus pares são fatos decisivos no desenvolvimento das relações sociais e todas as habilidades que esse cenário comporta. Em um mundo cada vez mais virtual e de espaços reduzidos, os encontros reais tornam-se preciosidades que devem ser preservadas o máximo possível. A criança faz a parte dela naturalmente, mas para isso precisa de um adulto responsável que dê condições e crie o espaço favorável para que ela possa ser quem ela é: criança.
 

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