O demônio do meio-dia - por Andrew Solomon.

(...) A primeira coisa que vai embora é a felicidade. Não é possível ter prazer em nada. Desaparece o senso de humor, a crença no amor e na sua própria capacidade de amar. 

Andrew Solomon é depressivo, e talvez por esse motivo essa obra apresente tamanha sensibilidade. O autor levou cinco anos para escrever o livro, e durante esse período precisou lidar com as crises e limitações que a doença mental lhe provocava. Este texto aborda apenas alguns de seus sentimentos quando tomado pela depressão. Pode ser bastante esclarecedor, principalmente para quem convive com um depressivo e as vezes não consegue compreender a extensão do sofrimento.

(...) A depressão é a imperfeição no amor. Quando ela chega, destrói o indivíduo e finalmente ofusca sua capacidade de dar ou receber afeição. Ela é a solidão dentro de nós que se torna manifesta e destrói não apenas a conexão com os outros, mas também a capacidade de estar em paz consigo mesmo. Embora não previna contra a depressão, o amor é o que tranquiliza a mente e a protege de si mesma. Medicamentos e psicoterapia podem renovar essa proteção, tornando mais fácil amar e ser amado, e é por isso que funcionam. Na depressão, a falta de significado de cada empreendimento, de cada emoção e da própria vida se tornam evidentes. O único sentimento que resta nesse estado despido de amor é a insignificância.

Experimentar a decadência não é agradável, ver-se exposto às devastações de uma chuva quase diária e saber que está se transformando em algo débil, que uma parte de si cada vez maior vai pelos ares com o primeiro vento forte, transformando-o em alguém cada vez menor. A depressão começa do insípido, nubla os dias com uma cor entendiante, enfraquece ações cotidianas até que suas formas claras são obscurecidas pelo esforço que exigem, deixando-nos cansados, entediados.

"Minha depressão tomou conta de mim. Me sugou, uma coisa que se embrulhara à minha volta, feia e mais viva do que eu. Com vida própria, pouco a pouco me asfixiava. No pior estágio de uma depressão severa, eu tinha estados de espírito que não reconhecia como meus; pertenciam a depressão. Quando tentei pensar claramente sobre isso, senti que minha mente estava emparedada, não podia se expandir em nenhuma direção. Eu sabia que o sol estava nascendo e se pondo, mas pouco de sua luz chegava a mim. Eu não era suficientemente forte para parar de respirar. Sabia que jamais poderia matar essa trepadeira da depressão. Assim, tudo que eu queria era que ela me deixasse morrer. No canto mais apertado da cama, rachado e atormentado por essa coisa que ninguém parecia ver, eu rezava para um Deus no qual nunca acreditara inteiramente e pedia libertação. Cada segundo de vida me feria, porque essa coisa drenara tudo que fluía de mim, e eu não podia sequer chorar."

Sua mente é sugada a tal ponto que você parece um imbecil. Se seu cabelo sempre foi ralo, parece mais ralo ainda; se você tem a pele ruim, ela fica pior. Você perde a capacidade de confiar nas pessoas, de ser tocado, de sofrer. Posteriormente, ausenta-se de si. Todos gostaríamos que o Prozac resolvesse o problema – costuma-se buscar química para curar as rachaduras entre corpo e alma – mas, na minha experiência, o Prozac não resolve, a não ser que o ajudemos. Quando sozinhos, os remédios são um veneno fraco. A reconstrução do eu numa depressão e depois dela exige amor, insight, trabalho e, mais do que tudo, tempo.
 

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