Refletindo a Relação entre Pais e Filhos

Texto publicado no Espaço Cuidar pela psicóloga e
psicoterapeuta existencial Anna Paula Rodrigues Mariano.


Um dos temas mais discutidos na literatura das ciências humanas é a relação entre pais e filhos e tudo o que envolve o assunto – limites, a importância do diálogo, educação, entre outros. Ao logo do tempo foram surgindo vários conceitos e ideias que acabaram se transformando em verdadeiros manuais de como educar seu filho. Não há nada mais complexo do que as relações humanas e julgo uma temeridade reduzir toda essa riqueza a regras fixas. A maioria desse material tem o foco, basicamente, no comportamento da criança – a mimada, a birrenta, a distraída, a hiperativa, e por aí vai... Passa-se por cima da criança que se tem em casa para falar da criança da teoria, da pesquisa, do conceito. Não existem fórmulas prontas que garantem o desenvolvimento emocionalmente equilibrado das crianças, mas podemos pensar em alguns caminhos possíveis para refletirmos a questão, tomando todo o cuidado para não cairmos na armadilha de criar mais um manual de instruções.

Em primeiro lugar, quero pontuar a importância de vocês pais se responsabilizarem por um ambiente familiar emocionalmente equilibrado, afinal, vocês são os adultos da relação da qual partirá todo o exemplo. Para isso, vocês precisam estar em boas condições físicas e emocionais. Antes de serem pais, vocês são pessoas e precisam levar em consideração suas demandas e necessidades. A função mais sublime de um pai e de uma mãe é ser cuidador, e todo cuidador precisa, também, de cuidados. Imaginem que exemplo maravilhoso para seu filho ver que você busca seus sonhos, cuida da saúde física e emocional, consegue estabelecer uma rotina e limites de forma que a organização seja um ponto forte no seu modo de ser. Quem já não ouviu que o melhor ensinamento é a própria ação efetivada? Não adianta um sermão lindo para seus filhos sobre como eles devem enfrentar a vida, se ao mesmo tempo a criança percebe que você se desorganiza em seus compromissos, não cuida da saúde, não cultiva seus relacionamentos. Isso é pura incoerência, e a criança percebe.

O que estou dizendo é a importância de se cuidar da existência, e nesse sentido, cuidado é um ato de amor. Como esse amor é expresso na relação? Como você demonstra seu afeto por seu filho? Não se trata apenas de arrumá-lo bem, cuidar da sua higiene, acompanhar suas tarefas escolares, levá-lo ao médico... Já ouvi muitas mães se vangloriarem de serem mães exemplares por realizarem esse tipo de cuidado, que eu costumo chamar de “cuidado prático”. Como resposta a essas mães, também já ouvi filhos dizerem “ela cuida de tudo isso, mas não consegue me dar um beijo, não quer ouvir minhas histórias, não tem paciência para jogar uma partida do meu jogo preferido”. É sobre isso que estou falando, sobre o estar junto com o seu filho, brincar com ele, participar de seu mundo, mostrar que tem interesse pelas suas coisas, não só nas que compõem o lado prático do dia-a-dia, mas principalmente naquelas coisas que toda criança gosta de compartilhar com os pais. Isso é o mais essencial, é o olhar que autentica a relação de amor que envolve todo o desenvolvimento da criança, o olhar interessado, que acompanha, escuta, acolhe e ofereça segurança. 

Outra questão invariável é o estabelecimento de limites desde cedo e, sobretudo, de forma coerente. Os limitem auxiliam a criança a conseguir administrar o próprio comportamento, a se organizar, a sentir-se segura e protegida em uma rotina familiar que será sua plataforma para a vida futura. Conversar sobre os limites e ouvir o que seu filho tem a dizer também é uma ótima maneira de dar espaço para que ele se coloque e se reconheça como alguém que tem opiniões, desejos, alguém que tem querer. Isso é extremamente significativo para a criança que está se descobrindo e começando a conquistar o mundo.
 

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